terça-feira, 9 de dezembro de 2014

PETROLÃO OU PETROCANO???


          OS PUDORES DAS VIRGENS IMACULADAS DO BRASIL NO CASO PETROBRÁS.




Não eram jovens, ao contrário, verdadeiras matronas de prole criada que não raro se estendia para mais de dez rebentos paridos, amamentados e criados. Vestiam-se com rigor e zelavam pela honra de suas famílias, razão pela qual não admitiam que a palavra “sexo” fosse pronunciada na presença delas. Abriam e sacodiam o leque e fechavam a cara expressando horror: “Ohhh!”. Não é que desconhecessem os segredos e mistérios das alcovas, aliás, os rebentos eram a prova viva de que inclusive protagonizavam a coisa toda, mas se escandalizavam de ver a palavra exposta diante delas e na presença de outros.
Nossa velhas e tradicionais virgens imaculadas invadiram os corpos dos políticos, imprensa e brasileiros especialmente esse ano.
“Escândalo de corrupção na Petrobrás”.
“Ohhhh....” , entoam horrorizados depois de abrir e sacodir seus leques.
Identifica-se a expressão de horror em Willian Bonner e sua nova ‘partner’ Renata Vasconcelos,em Alexandre Garcia, e até mesmo (pasmem) em FHC e Aécio Neves.
Não é que nossas virgens imaculadas da política e comunicação não conheçam os escoadouros da Petrobrás, ao contrário, cansaram de se locupletar deles, mas quem não sente pudores em ver tais indecências sendo ditas na sala de visitas, ou de forma escancarada para todo o Brasil? Quase posso ver FHC sussurrando nos corredores: “Venhamos e convenhamos que fazer não é o problema, mas isso diz respeito à intimidade das partes”.
“A Petrobrás não pode escoar dinheiro para campanhas políticas, afinal é uma empresa pública”, é o que mais se ouve.
E que diferença faz se o dinheiro sai das empresas privadas? Por acaso deixarão de apresentar a conta? E não serão ressarcidas (com todos os juros, dividendos e acréscimos que envergonhariam qualquer agiota) também com dinheiro igualmente público?
Ora, senhores, sem hipocrisia. Os doadores de campanhas, sejam eles públicos ou privados, são os michês que vendem seus nomes para preencher os requisitos de fachada da indústria da corrupção política. A Petrobrás repassa o dinheiro para empresas que as repassa em seguida para políticos. Se mina o esquema na Petrobrás sem proibir o financiamento privado de campanhas, a única diferença é que você deixará de pagar antes e pagará depois: As empresas doarão o dinheiro e receberão em seguida o mesmo dinheiro público de empresas estatais ou programas sociais.
E por que não trocam eles o discurso de condenação à prática pela proibição das doações por empresas públicas e privadas? Isso não foi objeto inclusive de ação de inconstitucionalidade encaminhada pela OAB ao STF? Os ministros não votaram de forma quase unânime pela proibição, aprovando o fim das doações?
Esqueçam. As velhas senhoras não querem falar sobre isso porque seria o fim da indecência que tanto bem lhes faz. Bastaria que FHC ordenasse ao seu fiel escudeiro no STF, ministro Gilmar Mendes, a devolver o processo já aprovado que pegou para vistas e nunca mais entregou de volta. Ou bastaria que a imprensa começasse a exigir a devolução do processo com um dedinho do empenho que utilizou para obter a condenação dos mensaleiros petistas ou a absolvição dos mensaleiros tucanos.
Mais penoso do que assistir a hipocrisia reinante nas velhas raposas da política e comunicação é vê-la se espalhando entre uma população analfabeta ou desmemoriada no que tange à política. “Corrupção...”, inicio eu... e logo surge o coro dos discípulos das virgens imaculadas: “Ohhhhh...”
Sejamos honestos, não há o que se discutir sobre Petrobrás. O assunto que deveria movimentar as rodas era - isso sim - o financiamento público exclusivo para campanhas ou a reforma política que traria a questão à baila.
Diante do silêncio da imprensa e das velhas e pudicas raposas, abram seus leques, pois a continuar nesse rumo a única pergunta possível é: “Você prefere pagar a conta antes ou depois?”.



Míriam Moraes é especializada em jornalismo político, autora do livro POLÍTICA -  Um guia politicamente correto para entender o sistema de poder no Brasil, opinar e debater a respeito.

sábado, 28 de setembro de 2013

ODE AO FACEBOOK



  Pouco tempo atrás eu estaria caçoando de quem escrevesse alguma coisa com esse título. Só aderi ao Facebook no começo desse ano. Eu era do time que faz pouco do Facebook. Até que comecei a usar por força da profissão, para divulgar produtos. Era para ser uma relação superficial, utilitária, mas foi aí que comecei a enxergar as pessoas que estavam por ali. Esse é o meu ponto fraco. Adoro gente. Não apenas ao vivo, em cores, gosto das mentes das gentes. Logo no começo, conheci uma moça que não sei como chegou ao meu Face. É mexicana. Através das postagens dela, passei meses acompanhando o cotidiano de uma trabalhadora, mãe de dois filhos, jovem, moradora de um bairro muito pobre da periferia da cidade do México. Postava muita coisa pessoal, muitas fotos com os filhos, na rua, em passeios. Era interessante ver cenários que a capital mexicana não exibe em folders turísticos. Ela sumiu, ou parou de postar. Ficou a preocupação. Mas talvez seja uma das muitas pessoas que me convidam e depois se arrependem. Sim, permanecer na minha lista é para os fortes. Em dias mais animados, acabo promovendo (sem perceber) um verdadeiro bombardeio de notícias políticas, assunto que recentemente até está mais em voga, diferente do que era até maio, antes das manifestações de rua;  sobre a atuação da imprensa; economia... temas considerados chatos por uma grande maioria dos usuários do Face. Mas tem gente que gosta do assunto e gente que fica apesar disso. Nesse segundo rol estão inclusos aqueles que não têm lá muita escolha, tipo sobrinhos (os meus são incontáveis) e parentes em geral. Eles até poderiam te bloquear, mas vá explicar isso no almoço de domingo. E como não têm lá muita escolha, a gente acaba podendo trocar muito mais, vira e mexe surge um assunto que mobiliza a atenção deles, postam algo que te interessa, dá para ficar sabendo o que acontece na vida de todo mundo e isso acaba fortalecendo o convívio. Quanto aos filhos, estes você pode inclusive proibir de te excluírem com o argumento da responsabilidade de acompanhar o que fazem nas redes. E com eles tão perto, dá pra mostrar muitas vezes o amor que temos, dá pra dizer “eu te amo” de um monte de formas e ficar perto mesmo quando estão fisicamente longe de nós. Um achado. E junto com eles, acaba vindo os amigos deles. Tenho uma legião de adolescentes na minha lista, o que acaba me rendendo uma experiência extra para compreender esse universo incrivelmente mutante de geração a geração, no aspecto cultural.
São muitas as vantagens de utilizar o Face. 
O que a gente aprende! Muitos evitam postar opiniões para não correr o risco de serem questionados, porque se isso acontecer, ou você tem argumento sólido para apresentar ou é melhor se virar para encontrar. O "acho porque acho" tem cada vez menos espaço nesse ambiente. Isso acaba levando o usuário a pesquisar para embasar a opinião, o que pode inclusive destruir antigas e arraigadas convicções. 
Quem se leva muito a sério não tem resistência emocional para sobreviver nesse meio, o que em minha opinião é outro ponto a favor. Ou você desenvolve alguma dose de humildade e dose cavalar de auto-estima, ou acaba encerrando a conta. Eu aprendi a apanhar. Apanho tanto que dia desses um dos meus amigos adolescentes entrou no meio de uma discussão política barra-pesada só pra me defender. Achei lindo. Ele imaginou que eu estivesse mortificada, mas não estava. Aprendi que por ali tem gente de todo jeito. Alguns usam a agressividade para não se explicar, outros por medo de mudar de ideia, medo de descobrir que há algum fundo de razão que poderia abalar sua crença... E há os que agridem porque te acham idiota mesmo. Ok, já posso sobreviver a isso sem sequelas. Afinal, já que tenho o direito de achar que alguns são pouco dotados de genialidade, devo conceder o direito de pensarem o mesmo de mim. Simples assim.
Foi no Face que minha amizade com um gigante na minha área, um jornalista que sempre admirei, se tornou mais sólida. Hoje, até aconselhamento sobre educação de filhos peço a ele, um conselheiro e tanto. Esse gigante em tudo fez de mim uma eterna devedora do Facebook. Também conheci um escritor carioca, descendente de alemães, mestre na arte de filosofar e em outra mais rara, a arte de viver só. Sabia extrair prazer disso como ninguém, fornecedor de receitas exóticas tipo sopa de batata baroa com beterraba... Cozinhava tomando vinho e ouvindo boa música, era um solitário sem solidão. Lindo isso. E não é que recentemente ele encontrou uma garota?! Agora é mestre na arte de viver uma relação a dois com grande sensibilidade. Lindo isso também. E tem um músico de Volta Redonda que escreve muito, saca mais do que eu sobre todos os assuntos do mundo, verdadeiro mestre, uma fonte de conhecimento grátis; uma carioca que me mata de rir com suas tiradas bem-humoradas sobre os conflitos da mulher solteira em tempos modernos; uma universitária mineira que questiona tudo e resgatou minha fé na humanidade; e até uma garota esperta de 12 anos que disse que lia meus posts mesmo sem entender nada, e pude dizer a ela que gosto de política porque é a via de solução até para o envenenamento de gatinhos, já que ela andava em campanha contra pessoas que matam bichinhos em série em sua cidade. Só dela já haviam envenenado dois. Como eu poderia conhecer um aspirante a artista que mora numa cidade chamada Itapipoca, na Bahia? Ele me envia blinks e links do Youtube com seus covers. Talvez eu esteja tendo o privilégio de ouvir os primeiros ensaios e um grande astro POP, já pensou?
O melhor é que você tem essa infinidade de universos numa única tela, tudo junto e misturado. Família, amigos, a sabedoria dos mais vividos lado a lado com a inquietação dos jovens... Vejo meu presente, passado e futuro provável em muita gente e muitas vezes todos os dias. Um verdadeiro arsenal de ideias, visões e ideologias a um click.
Ok, nem tudo são flores no Face. Também tem poesia, tem postagens filosóficas e até consultoria a custo zero quando se conhece as pessoas certas. Tem também oportunidades de negócios. Muitas vezes intermedio a venda de imóveis caríssimos negociando os termos in box, pelo Face. E o supervisor de uma indústria para qual trabalho deixou de ser fiscal, virou parceiro de questionamentos sociais. Todos os dias falo com um monte de clientes que se tornam amigos, e com alguns amigos que se tornam clientes.
Um dos meus antigos preconceitos em relação ao Face ainda não tem resposta. Observo que uma boa maioria só lê postagens que venham com imagens. Será que vamos voltar ao tempo onde reclamar de um livro sem figuras não seja propriamente um atestado de maturidade intelectual? Por outro lado, vejo frases de autores interessantes pipocando o tempo todo por lá. Quem sabe os fragmentos não acabem despertando o interesse pelas obras completas?
E o Face exige poder de síntese. Escreva textos longos e ninguém vai te dar a menor bola. Isso não aprendi. É um dom que eu definitivamente não possuo e nem o Face foi capaz de me ensinar. E essa acaba sendo a razão de ser deste blog. 
O post que inspirou sua criação é simplesmente fantástico, uma simples imagem que remete a problemas profundos da educação brasileira. Isso sim é um post genial:

Provavelmente este blog se transforme numa espécie de diário moderno, um guardião das minhas ideias. O importante é que depois de 3 anos longe de uma redação, dois anos e meio depois de encerrar meu último livro, sinto novamente vontade de escrever e ponho em prática um meio que ordena esse exercício.
Venhamos e convenhamos, já é um começo.